Prevenção de Infecções de Sítio Cirúrgico
Segundo a ANVISA, as Infecções de Sítio Cirúrgico (ISCs) representam 14% das infecções em ambiente hospitalar, configurando-se como o terceiro lugar entre as Infecções Relacionadas à Assistência em Saúde (IRAS). Assim, a prevenção das ISCs está diretamente relacionada a uma série de fatores que podem ser controlados por boas práticas no preparo círúrgico (ANVISA, 2017).
O que são as Infecções de Sítio Cirúrgico?
As Infecções de Sítio Cirúrgico (ISCs) são infecções que acometem a ferida operatória ou qualquer tecido manipulado durante a operação, incluindo órgãos e cavidades naturais, e se iniciam em até 30 dias após o procedimento (ANVISA, 2017).
Em cirurgias nas quais foram implantadas próteses, a ISC pode ser diagnosticada até 90 dias após a data do implante, conforme os critérios da ANVISA (2017).
Medidas gerais de prevenção de ISCs
As medidas de prevenção de ISC apresentam foco em fatores modificáveis (como preparo inadequado da pele, profilaxia cirúrgica inadequada, contaminação intra-operatória, excesso de pessoas na sala, entre outros) e baseiam-se nas evidências descritas na literatura. Desse forma, as medidas de prevenção de ISC podem ser divididas em alguns tipos de medidas:
- Medidas pré-operatórias;
- Medidas intra-operatórias;
- Medidas pós-operatórias.
Medidas pré-operatórias
Medidas pré-operatórias são aquelas realizadas antes do ato cirúrgico, com o objetivo de preparar o paciente e reduzir o risco de complicações, incluindo as infecções do sítio cirúrgico (ISCs). Envolvem estratégias para preparar adequadamente o paciente, reduzir a carga microbiana e otimizar as condições clínicas, contribuindo para maior segurança e melhores desfechos cirúrgicos (ANVISA, 2017).

Avaliação pré-operatória dos fatores de risco
Com relação à diabetes, recomenda-se o controle da glicemia. Para o tabagismo, o ideal é que a abstenção seja um item obrigatório nas cirurgias eletivas pelo menos 30 dias antes da realização das mesmas (ANVISA, 2017).

Tempo de internação pré-operatória
A internação deve ocorrer no dia da cirurgia ou na véspera da cirurgia (ANVISA, 2017).
Banho pré-operatório
É recomendado o banho pré-operatório de corpo total com sabão neutro antes do encaminhamento ao centro cirúrgico em cirurgias eletivas ou de pequeno e médio porte (ANVISA, 2017).
- No caso de cirurgias de grande porte ou cirurgias com implantes, recomenda-se o banho de corpo total, com exceção da mucosa ocular e timpânica, com clorexidina degermante 2% duas horas antes do procedimento cirúrgico (ANVISA, 2017).
- Cirurgias craniocefálicas necessitam de atenção especial no que se refere à higiene da cabeça, sendo de suma importância que o cabelo esteja seco antes da ida do cliente ao bloco operatório (ANVISA, 2017).
- A embrocação ginecológica com clorexidina aquosa antes do procedimento cirúrgico deve ser realizada em pacientes submetidas a cesariana ou a histerectomia (ANVISA, 2017).
- Em casos em que houver previsão de intubação orotraqueal, orienta-se a realização da higiene oral com clorexidina 2% (ANVISA,2017).

Tricotomia pré-operatória
Não deve ser realizada de rotina. Porém, se houver a necessidade de ser realizado, deve-se fazê-lo imediatamente antes da cirurgia, utilizando tricotomizadores elétricos, e fora da sala de cirurgia, sendo contraindicado a utilização de lâminas, pois causam microlesões na pele, o que aumenta o risco de infecções (ANVISA, 2017). A tricotomia é realizada com o objetivo de facilitar a visualização do campo cirúrgico e a aderência de curativos.

Antissepsia cirúrgica das mãos
A antissepsia cirúrgica das mãos configura-se como uma medida pré-operatória importante na prevenção de IRAS (ANVISA, 2017).

Profilaxia antimicrobiana adequada
Administrar o antibiótico somente quando indicado e no momento adequado para atingir níveis séricos e teciduais adequados durante a incisão e manipulação do sítio cirúrgico.
A primeira dose de antibiótico deve ser administrada 60 minutos antes da incisão, com exceção de quinolonas, clindamicina, aminoglicosídeos e vancomicina, cuja administração deve ocorrer 2 horas antes do início da cirurgia.
Suspender a prescrição do antibiótico em 24 horas de pós-operatório.
Medidas intraoperatórias
Medidas intraoperatórias são ações realizadas durante o ato cirúrgico. Incluem práticas assépticas, manutenção da normotermia, controle do tempo cirúrgico e uso correto de técnicas e materiais estéreis, garantindo maior segurança ao paciente e melhores resultados pós-operatórios (ANVISA, 2017).

Normotermia
Segundo recomendações da ANVISA (2017), é importante manter a normotermia (≥ 35,5°C) no período perioperatório. A hipotermia perioperatória prejudica a função dos neutrófilos, incluindo sua capacidade de quimiotaxia, fagocitose e eliminação bacteriana, reduzindo a resposta imune local e sistêmica, o que aumenta a suscetibilidade à infecção (CENGIZ et al, 2021).

Controle glicêmico
Deve-se manter o controle da glicemia no período perioperatório em pacientes diabéticos e não diabéticos, tendo como alvo níveis glicêmicos <180mg/dL, pois níveis elevados de glicose prejudicam a função dos neutrófilos e a resposta imune, ocasionando maior risco de infecção do sítio cirúrgico (DOMINGOS et al, 2016).
A internação deve ocorrer no dia da cirurgia ou na véspera da cirurgia (ANVISA, 2017).

Paramentação cirúrgica
Como já abordado no tópico anterior, a realização adequada da paramentação cirúrgica é uma medida fundamental para a prevenção de infecções de sítio cirúrgico e compreendem a antissepsia cirúrgica das mãos, utilização de aventais e luvas esterilizadas, além de gorro e máscara (ANVISA, 2017).

Preparo da pele do paciente
São cuidados que devem ser realizados durante o preparo intraoperatório da pele do paciente: realizar degermação do membro ou local próximo da incisão cirúrgica antes de aplicar solução antisséptica; e, realizar a antissepsia no campo operatório no sentido centrífugo circular (do centro para a periferia) e ampla o suficiente para abranger possíveis extensões da incisão, novas incisões ou locais de inserções de drenos, com solução alcoólica de PVPI ou clorexidina (ANVISA, 2017). Além disso, deve-se aguardar a secagem espontânea do produto.

Drenos
É preconizado que a inserção de drenos ocorra no momento da cirurgia, preferencialmente em uma incisão separada, diferente da incisão cirúrgica. A recomendação é fazer uso de sistemas de drenagens fechados, e a remover o mais breve possível (ANVISA, 2017).
Em suma, as orientações para a sala cirúrgica são:
Fonte: CCIH HUAP, 2025.
Outras medidas para prevenção de ISCs no intra-operatório
Outras medidas de prevenção de ISCs no intraoperatório envolvem o controle rigoroso da circulação de pessoas no centro cirúrgico e a adoção de cuidados com a limpeza, organização e manutenção da estrutura física. Essas práticas são essenciais para preservar a assepsia do ambiente e reduzir o risco de contaminação durante o procedimento cirúrgico (ANVISA, 2017).

Circulação de pessoal
Com relação às medidas de circulação de pessoal, os seguintes cuidados devem ser tomados (ANVISA, 2017):
- Manter as portas das salas cirúrgicas fechadas durante o ato operatório;
- Limitar o número de pessoas na sala operatória, mantendo somente o número de pessoas necessário para atender o paciente e realizar o procedimento;
- Evitar abrir e fechar a porta da sala operatória desnecessariamente;
- Não levar celular, bolsas e alimentos para dentro da sala cirúrgica.

Cuidados com ambiente e estrutura
No pós-operatório, devem-se manter ventilação adequada na sala com pressão positiva e filtro HEPA, garantir esterilização completa dos instrumentos, evitar o uso rotineiro de esterilização flash, realizar limpeza terminal diária e diferenciada após cirurgias contaminadas, além de limpeza concorrente entre procedimentos com ênfase em superfícies tocadas e equipamentos (ANVISA, 2017).
Medidas de pós-operatório
Medidas pós-operatórias são ações realizadas após o término da cirurgia. Incluem o cuidado adequado com a ferida operatória, monitoramento de sinais de infecção, manutenção da higiene e orientações ao paciente para garantir uma recuperação segura e sem complicações (ANVISA, 2017).

Controle glicêmico no pós-operatório imediato
Deve ocorrer a monitorização do nível glicêmico de todos os pacientes, independente de possuir diabetes ou não. É preconizado a manutenção da glicemia entre abaixo de 180mg/dl até 24h após o final da anestesia (ANVISA, 2017).

Avaliação de curativos
Devem ser avaliados os aspectos da ferida com relação à presença de inflamação, infecção, umidade e condições das bordas da ferida. O primeiro curativo cirúrgico deverá ser realizado pela equipe médica ou enfermeiro especializado (ANVISA, 2017).

Orientações pós-alta
Deve ser realizada, por parte dos profissionais da saúde, a orientação sobre sinais e sintomas de alarme (ANVISA, 2017).
Em suma, as medidas de prevenção de ISCs são:
Fonte: Autoria própria, 2025.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA. Critérios diagnósticos de infecções relacionadas à assistência à saúde. Brasília: Anvisa, 2009. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/criterios_diagnosticos_infeccoes_assistencia_saude.pdf. Acesso em: 01 jun. 2025.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. 2. ed. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/caderno-4-medidas-de-prevencao-de-infeccao-relacionada-a-assistencia-a-saude.pdf/view. Acesso em: 24 jul. 2025.
CENGIZ, H. Ö.; UÇAR, S.; YILMAZ, M. The role of perioperative hypothermia in the development of surgical site infection: a systematic review. AORN Journal, v. 113, n. 3, p. 265–275, mar. 2021. DOI: 10.1002/aorn.13327
DOMINGOS, C. M.; IIDA, L. I.; POVEDA, V. B. Glycemic control strategies and the occurrence of surgical site infection: a systematic review. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 50, n. 5, p. 868‑874, set./out. 2016. DOI: 10.1590/S0080‑623420160000600022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27982408/. Acesso em: 29 jul. 2025.
HOSPITAL ALBERT EINSTEIN. Manual de prevenção de infecção de sítio cirúrgico. São Paulo: Hospital Albert Einstein, 2014. Disponível em: https://medicalsuite.einstein.br/pratica-medica/guias-e-protocolos/Documents/manual_infeccao_zero_compacto.pdf. Acesso em: 01 jun. 2025.